23 de mai de 2018

Esforço e Competência

Foto da Internet


    O final do intervalo das aulas era anunciado pelo sinal, ainda do tempo da sineta, que era grande, pesada e dourada, feita de bronze, fora doada à escola. Começaria a aula de biologia, disciplina que a maioria gostava, principalmente, na parte em que o professor explicava sobre o aparelho reprodutor humano. Havia um aluno que sempre se atrasava, o professor era austero na observância das normas e não aceitava atraso de ninguém, principalmente em suas aulas.Era um colégio particular, onde os alunos vinham de famílias abastadas, ele estudava ali, graças a uma bolsa integral, que lhe fora ofertada pelo diretor, pois era um aluno inteligente, estudioso, pesquisador, questionador, possuía tudo que um professor aprecia em um aluno promissor.
O problema é que Lucas, normalmente chegava com atraso em suas aulas, e o mestre disfarçadamente o deixava entrar, não questionava nada para não despertar a atenção dos demais.
Lucas rapidamente se inteirava do assunto da aula e começavam os seus questionamentos, o professor tinha admiração pelas suas dúvidas, pois com elas ele acabava tendo assunto para várias aulas. Alguns alunos, não davam a mínima atenção às aulas, mas Lucas o fazia por todos. Trazia em seu caderno dúvidas de estudo feito fora do horário, com livros da biblioteca, tinha satisfação em poder aprender sempre mais.
Seu professor o observava, sentia orgulho e o incentivava a ir além, porém o problema do atraso continuava, e o preocupava. Tinha medo de saber o motivo e perder seu melhor pupilo.
     Assim, seguiam as aulas e o atraso do aluno, certa tarde, o professor foi à biblioteca para registrar uns documentos e percebeu que Lucas estava em uma mesa, no final da biblioteca, fazia questão de não ser visto por ninguém, enquanto se dedicava arduamente ao estudo. O professor se aproximou lentamente, e percebeu que o menino não havia saído para almoçar, pois havia uma fatia de pão atrás dos livros. Seu Luciano, o professor ficou por um longo tempo refletindo sobre o mistério que Lucas guardava para si, porém, tinha receio de que se perguntasse algo, o menino que já era reservado escapasse de seus olhos.
Virou-se lentamente e foi embora, mas pensou melhor e voltou para falar com a bibliotecária.
    - A senhora sabe me informar se aquele menino, frequenta assiduamente a biblioteca?
     - Sim, o Lucas lê tudo que há sobre biologia, faz pesquisa, anota, registra, mas nunca ultrapassa às 16horas, também não faz as refeições, como os demais, sinto pena dele, penso em oferecer comida a ele, mas percebo que ele não deixa chance para eu me aproximar.
O professor ficou mais intrigado, pensou em uma maneira de se aproximar do garoto para saber mais sobre ele.
 Programou-se para forçar um encontro, e na tarde seguinte foi ao encontro do garoto. Lucas estava no mesmo cantinho, absorto em seus estudos, nem percebeu a chegada do mestre.
     -Boa tarde, Lucas? Podemos conversar?
O menino fez que sim, com um aceno de cabeça, o professor sentou-se e fitou com carinho, aquele menino que parecia tão necessitado de tudo.
  -Lucas, pode me contar o porquê de seus atrasos em minhas aulas?
O menino mudou de cor, quis levantar-se e correr, mas por respeito ficou calado, pensando como falar, sobre algo tão pessoal.
Virou o rosto para o professor e despejou o que há muito tempo o entristecia. Contou que tinha um irmão deficiente, e que ele se revezava para atendê-lo, chegava atrasado porque tinha que esperar sua mãe chegar do hospital, onde trabalhava à noite como enfermeira, e que ele não voltava para casa para almoçar, porque era o único tempo que tinha para estudar, pois em sua casa não havia nem espaço.
O professor, segurou as lágrimas e prometeu a si mesmo, ajudá-lo a se formar e seguir em frente. As dificuldades não diminuíram, ao contrário, aumentaram, mas Lucas seguiu em frente, tendo um aliado ao seu lado.
    Atualmente, Lucas leciona bioquímica e presta consultoria a empresas com ações de recuperação de áreas degradadas.
    Casado com uma bióloga, pai de duas filhas, continua estudando, mas hoje tem o seu cantinho à luz do sol, em sua casa.
     Professor Luciano, tem como afilhadas as duas pequenas de Lucas, as famílias são unidas, a gratidão está sempre presente no coração e atitudes ao nobre e idoso professor. Todos moram no interior de São Paulo.

8 de mai de 2018

Deficiência Eficiente

Gabriel Metzler, foi meu aluno na adolescência


    Nosso mundo tem bilhões de pessoas e todas são diferentes, pois sabemos que somos seres vivos únicos, uma ave, uma flor, uma pessoa, cada ser vivo é único com suas peculiaridades, mesmo deficiente, ainda é um ser único.
     Juntando aos bilhões de criaturas no mundo, estão aqueles que nascem com alguma deficiência, e que dependem de sua família para viver, não sabemos como mensurar o grau de aceitabilidade em relação a nascer com deficiência ou ficar deficiente em certa altura da vida, devemos portanto termos a consciência de que deficiências graves e insuperáveis são a moral e espiritual,infelizmente para esses casos, não há solução ou superação.
     A história de Nick Vujicic, nos mostra literalmente que não temos problemas, ele nasceu sem as pernas e sem os braços. Afirmar que ele superou totalmente, não há como, pois, Nick quando tomou consciência de que não tinha bracinhos nem perninhas, sofreu, quantas noites seu travesseiro deve ter ficado ensopado de lágrimas do medo que sentiu, de sua incapacidade de sua desesperança. Tinha consciência de tudo porque não era deficiente mental.
    Aprendeu a escrever, mas foi proibido por lei estadual de assistir às aulas em uma escola regular. Estava muito deprimido, sofreu bullying e aos nove anos começou a pensar em suicídio, porém Deus não o abandonou, e houve a mudança através de um artigo de jornal, onde registrava a história de um homem que vivia com grande e grave deficiência, o que o levou a refletir, que ele não era o único a ter problemas.
    Hoje, Nickolas James Vujicic, é um pregador, palestrante motivacional e diretor de uma organização cristã sem fins lucrativos.
     Suas palestras são sobre a questão da deficiência e da esperança.
     Há centenas de exemplos sobre superação, outro exemplo de vida e superação quem nos dá é Gabriel, que aos quinze anos, em consequência de explosivos perdeu totalmente a visão do olho direito e parcial do esquerdo, anos depois acabou perdendo a visão da vista esquerda.
     Gabriel com muita determinação e coragem, seguiu sua vida, é claro que com dificuldade, e a cada dia seus “olhos” enxergavam mais e mais. Estudou, e hoje é engenheiro civil, MBA Internacional na Fundação Getúlio Vargas e The George Washington University (Washington, EUA) e curso em Harvard.
    E assim, ele seguiu em frente, já com passos largos, pois a falta de visão não o deixou abatido sobre uma cama, foi à luta, usando as palavras de Nick Vujicic:” A distância entre o sonho e a conquista , chama-se atitude”, podemos observar que Gabriel teve atitude, e foi por sua força e  garra, porque se ele não as tivesse, de nada adiantaria que os pais o incentivassem à batalha, e após reavaliar a importância da vida, Gabriel, juntamente com pessoas que comungam o mesmo sentimento, criaram o GAV – Grupo Alerta Vida. O GAV recebeu muitos prêmios, vale ressaltar que em 2000, foi premiado pela UNESCO.
     Ele foi para as mídias, possui um canal no YouTube com vários seguidores faz postagens semanais de vídeos, as visualizações crescem a cada minuto, o que nos mostra que são de grande valia para todos que querem “ver” além de “enxergar”, ou como dizia Saint Exupéry, “Só se vê bem com os olhos do coração”. Voltando às mídias, em uma postagem intitulada "Seja meus Olhos”, que foi compartilhada por Ricardo Amorim, o número de visualizações chegou a mais de cinquenta mil, significa que Gabriel está fazendo a diferença na vida de muitas pessoas. Paralelo a isso, ministra palestras em empresas, escolas, instituições, enfim para todos que querem obter um novo olhar sobre o Universo.
     Existem pessoas ousadas, mas Gabriel foi além, sempre com o objetivo de somar, escreveu e lançou um livro, cujo título é "Um Novo Olhar Para a Vida", afirmo que o conteúdo da obra, nos faz refletir sobre como vivemos, o que deixamos escapar pelo vão dos dedos, sem nos darmos conta de que tudo é efêmero.
    Hoje se destaca, como autor brasileiro pelo conteúdo de sua obra, que   é certamente composta por pensamentos fortes, que transformam os seus leitores. Segundo o filósofo Paul Valéry:” A felicidade tem os olhos fechados.”
Gabriel Metzler é feliz, pois seus olhos refletem a superação em sua alma.

28 de abr de 2018

Rir ou Chorar


   Há muitos fatos em nossas vidas, que nos levam a sentir tristeza, porém outros acabam nos fazendo rir, mesmo não sendo a intenção.

 Era finzinho de tarde, coletivos passavam apressados e lotados, Dona Cida, falava:

 - Gente, preciso pegar o próximo ônibus, porque quero escapar da chuva, e
ainda tenho um longo caminho até minha casa. Havia muitas pessoas nas mesmas condições que ela, o silêncio era assustador, mas ninguém ousava comentar nada, pois o cansaço era visível em todos os rostos, alguns olhavam fixamente para o chão, outros verificavam os coletivos que se aproximavam, na esperança de que parassem para que todos pudessem ir para suas casas. Nenhum parava, todos lotados, o condutor só fazia um leve aceno com a cabeça, confirmando a lotação.
  Dona Cida, estava revoltada e começou a xingar em voz alta. Falava até o que não devia, dava pequenos pulinhos demonstrando a sua indignação contra o serviço dos coletivos, pois ela jamais conseguira chegar em tempo para jantar com a filha, que a esperava saudosa.
 Cida, bateu tanto, e com tanta força, a sua sombrinha, no banco, que a quebrou ao meio.
 De repente, um senhor levantou-se irritado e passou um sermão nela.

Foi uma péssima ideia, pois a mulher descarregou a raiva incontida sobre o pobre senhor. Ele ficou sem ação e sem argumentos, pois ela nem deu chance para ele continuar. Os demais passageiros que esperavam pelo ônibus, se posicionaram em fila para o acesso, no próximo ônibus que se aproximava, a mulher tão preocupada em reclamar não percebeu a chegada dele. Quando viu era tarde, pois o ônibus estava lotado e fechara as portas. Cida tentou atirar uma pedra contra o coletivo, mas o impulso mal dado, fez com que a pedra caísse logo adiante. O ato agressivo foi criticado pelas pessoas, que faziam nova fila para embarcarem no próximo ônibus, a maioria das pessoas ignorava a tal senhora, que mais parecia uma louca desvairada, estava visivelmente estressada pela correria da vida diária, digna de pena, e tantos e tantos passam pelo mesmo dilema. Notamos que as pessoas reagem de maneiras diversas, enquanto Cida mostrava-se agitada e descontrolada outras pessoas ficavam caladas, introspectivas, remoendo seus pensamentos, lendo ou falando ao celular.

 Passavam os ônibus de todas as linhas, dona Cida mais calma, percebeu que precisava ficar atenta para embarcar no próximo ônibus. A fila era extensa, ela ficara quase no final, pois sua inquietação fizera com que perdesse um lugar mais à frente.
  Calou-se e seguiu para entrar no ônibus, percebeu que nem todos conseguiriam seguir viagem, pois o ônibus já vinha lotado, ela ficou posicionada de maneira que quando as portas se abriram ela conseguiu entrar, passando na frente de todos, o coletivo seguiu, mas a bolsa dela ficou pendurada fora da porta.
 Os gritos eram uníssonos:
 -A bolsa! Olha a bolsa! Oh, dona, olhe a bolsa!

 Infelizmente, a bolsa viajou assim, até a última parada do ônibus.

18 de abr de 2018

Medo da Chuva

Foto da internet



Ela vem chegando mansinho, mas de repente mostra toda a sua força e quando a mostra leva consigo tudo o que encontra pela frente.
A chuva nos é benéfica na medida certa, mas quando ultrapassa o limite traz a desgraça de uma ou várias cidades, pois deixa seu rastro de desolação. Este assunto surgiu logo após uma chuva forte que caiu em nossas cidades, no dia de ontem. Não vamos falar aqui, da interferência do ser humano no trajeto da água como; problema da pavimentação, eliminação da vegetação, desmatamentos das ruas, praças, o excesso de cimento, calçadas, falta de drenagem e outros meios que ajudariam no escoamento da água, sem esquecer a abundância de lixo descartado de maneira indevida.
Então é certo dizer que não respeitamos o ambiente em que vivemos, é triste.
Vamos falar sobre o sofrimento das famílias que vivem a olhar para o alto, quando a chuva parece não querer parar. Assim aconteceu ontem, com uma amiga, que ficou preocupada ou triste com a lembrança da última cheia em nossas cidades.  A ansiedade, o medo e até angústia daqueles que já viveram o drama de uma enchente ainda é presente em sua vida e de seus familiares.
Mesmo que sejamos privilegiados em morar em lugar livre de enchente, sofremos com parentes e amigos que ficam desabrigados de casa, agasalho, conforto do lar, da família, pois muitas são divididas para morar, mesmo que temporariamente com outras pessoas. Quem tem lugar com parentes, quem sabe se estresse menos, mas há os que ficam em escolas, em ginásios, em igrejas, e nem sempre há condições de suprir todas as necessidades.
As pessoas que perdem sua casa mesmo que depois recuperada, qualquer trovão a faz tremer pelo medo do que vai perder. Já dizia Wiliam Feather:
“Algumas pessoas estão fazendo uma preparação tão minuciosa para os dias de chuva que eles não estão aproveitando o brilho do sol de hoje.”
A chuva contínua, que permanece por vários dias, e transforma-se em calamidade, passa a ser uma inimiga, por isso, muitas pessoas não vivem sossegadas. Todos sofrem, e, há ainda os animais. Minha amiga estava muito sentida ainda, depois de tanto tempo passado, porque perdera seu cãozinho de estimação, pois no dia da mudança, com a água chegando ele fugiu de medo, e mesmo com muita procura jamais foi encontrado E, assim há com certeza, muitos casos piores envolvendo morte de pessoas, roubo de alimentos, de cobertores e muitas outras coisas.
Clarice Lispector dizia que as pessoas ficam tão preocupadas com a chuva repentina, a transformam em tempestade, mesmo sendo apenas uma nuvem passageira.
Como não temer a chuva que vem com vento, as árvores se dobram ou se quebram com o impacto de muita chuva, sem falar no granizo, pois este congelado, o vapor de água fica com mais peso do que a nuvem pode aguentar e cai, em forma de pedra de gelo, também fazendo seus estragos em plantações e, às vezes pelo tamanho, acabam matando animais que estão no campo. Quem já passou por momentos tristes devido às chuvas ou enchentes vai ter que com o tempo trabalhar para afastar o medo, pois a chuva virá sempre.


Quem sabe pensar como Raul Seixas:
“Eu perdi o meu medo, o meu medo da chuva.
Pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar.
Aprendi o segredo, o segredo da vida.
Vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar.”


31 de mar de 2018

Aqui passou a boiada


  Houve um tempo em que a boiada passava em frente a minha casa,e tudo era festa,não havia necessidade de reservar lugar, para assistir, pois a porta do armazém dos meus pais,já era meu lugar cativo. Em tempos de chuva, o barro misturado aos tocos das árvores,os quais eram jogados para dar mais firmeza aos cascos dos animais,espalhava-se para todos os lados, paredes e pessoas que se arriscavam a passar perto de onde a boiada passava.Minha mãe estava sempre de olho em mim,na época,eu contava com meus quase três anos,e a passagem da boiada,onde hoje é a avenida João Pessoa, para mim, era o maior show, eu abanava para os boiadeiros, na época, o falecido Romualdo Melo e seus ajudantes. Quando o chicote rodopiava e estalava no ar, eu pulava de alegria, meus pais diziam que eu batia palmas e pedia aos gritos para que eles não surrassem os bois e, é claro eu chorava muito, pois para mim os bichinhos estavam apanhando e, de certa maneira,estavam.O falecido,seu Romualdo,era traquejado no jeito de tocar a boiada,levava os bois pela manhã para o seu açougue,mas antes passavam pelo posto de desinfecção,eu nada sabia,então meu pai dizia que eles iam tomar banho,e à tarde,voltariam limpinhos para dormir.Eu passava o dia perguntando ao meu pai que horas os bois iam voltar, para dormir. E, à noitinha os que sobravam voltavam e iam para um potreiro próximo à igrejinha, que foi demolida há anos.O peão boiadeiro tinha um bom manejo com o berrante,e nem tudo era festa, pois eles sofriam com a mudança do clima,no inverno conviviam com as baixas temperaturas e no verão calor intenso. Em minhas lembranças há também a boiada que vinha de Palmas,e no verão os boiadeiros paravam para dar água aos animais,em uma enorme lagoa,próximo à casa de meus pais. Há tantas lembranças que me fazem querer voltar ao passado e registrar mais fatos que não voltam mais.Às vezes, eu não via a boiada, pois vinham com o escuro do dia,e meus pais não me deixavam ficar na frente do armazém,então quando meu avô estava em casa, e havia reses no potreiro me levava para vê-las. Eu queria ficar bem perto da porteira, e às vezes, havia alguma investida contra nós, e meu avô dizia:-Escapa! Escapa!Ah! quanta saudade!Olho para trás e vejo com olhos de menina a aventura de ver a boiada.Hoje,elas são lembradas através de filmes,poesias, poemas,contos e tantos registros,mas nada como o que tenho registrado em minha mente.Recordo-me bem que um lado da estrada era coberto por vasta vegetação, plantas que hoje muitos nem conhecem, alguns como: mamona, Inhapindá  ou unha de gato, diversos tipos de cipó, pente-de-macaco, eram para nós, crianças brinquedos, fazíamos barquinhos, com eles e jogávamos as sementes para cima para vê-las voando, havia muitos tipos de cipós,flores e amoreiras.E por ali, passava a boiada.Vou encerrar esta crônica com alguns versos de Casimiro de Abreu:“Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida,Da minha infância querida Que os anos não trazem mais!Que amor,que sonhos,que flores.”



Imagens: Google

13 de mar de 2018

O Equilíbrio na internet



    Recentemente, eu estava fazendo um trabalho em uma instituição e percebi uma garota isolada do seu grupo, parecia ter chorado, e dava-nos a impressão de que apenas queria ficar sozinha.
   Fiz algum comentário com algumas meninas sobre a situação e, elas me responderam:
   - Ah! professora, ela não quer nem conversar, nem brincar, e o que faz é de má vontade.
   Fiquei imaginando o que estaria acontecendo, pois pelo que presenciara nada faltava a ela, naquele maravilhoso lugar.
   Aproximei-me silenciosamente para não perturbar a sua meditação, ao perceber a minha presença, fez menção de sair, ela estava sentada à sombra de uma linda árvore florida. Despistei e sentei em um banco quase ao seu lado. Puxei conversa.
   -Olá! Tudo bem com você? Por que está aqui, sozinha? Não gosta deste lugar?
   A menina ergueu a cabeça e começou a falar, mostrava na voz a sua inquietação, falou que se sentia como uma prisioneira, pois havia horário para todas as atividades, e o pior disse-me ela:
  -Não podemos usar o celular aqui, não consigo viver sem me comunicar.
Fiquei assustada com as palavras dela, foi um desabafo muito triste, porque ela disse que a vida dela dependia de um celular.
Infelizmente, o fato acontece muito com a maioria não só de jovens, mas de muitas pessoas. Para os jovens, principalmente, ficar sem celular é um grande castigo. Em uma época não muito distante, presentear os filhos com um carro, era um presente que mostrava à sociedade o “status”, da família, hoje substituído pelo celular.
   O celular e internet nos trazem muitas facilidades, as quais não há necessidade de nomeá-las, porém há a obrigação do controle, pois tudo que é exagerado traz malefícios à saúde.
   A necessidade de estar sempre conectados gerou uma sociedade de adolescentes obcecados pelo imediatismo, como: esperam por respostas rápidas, conversas ligeiras, encontros nada longos, e, se algo for além do tempo, previsto por eles, gera uma grande ansiedade. E, como as relações virtuais andam juntas com as reais, podemos pensar que é um dos motivos para que os relacionamentos não tenham vida longa. Tudo parece ser descartável, infelizmente, o celular se tornou um item de consumo favorito da população.  Às vezes, nos assusta quando dois jovens, que estão próximos, usam o celular para se comunicar, trocando assim o encontro, o olhar nos olhos, a voz, o sentimento, por mensagens, as quais, muitas vezes acontecem por meio de simples “emoticons”. A preocupação é grande quando os limites desta comunicação deixam de fora a presença física da outra pessoa, causando assim a facilidade de falar sem se preocupar com as reações do seu interlocutor.
  “Mas para manter relações saudáveis, é preciso fazer um uso inteligente dos recursos tecnológicos e evitar os excessos da “dependência da conectividade”. Nesse ponto, a escola e, principalmente, os pais são responsáveis pela educação dos jovens.”
   Penso que deve haver o bom senso para  não ficar conectado o tempo todo, nem há necessidade de fazermos como a França ,mas uma boa dosagem de tempo, cada um deve fazer de acordo com a sua necessidade e consciência, "como empresa a gente se vê obrigado a estar conectado um tempo muito grande na internet, mas os usuários têm de praticar o 'nadismo', desconectar um tempo, passar um tempo descansando fora das telas".
“O verdadeiro perigo não é que computadores começarão a pensar como homens, mas que homens começarão a pensar como computadores” Sydney J. Harris, jornalista e escritor estadunidense.

4 de mar de 2018

Ser Mulher

Ser Mulher

   Subindo o morro com a bacia de roupas para lavar, no riacho de água barrenta vai a cabocla de pé no chão, começar o seu dia de trabalho árduo e desvalorizado, na rua de baixo a quitandeira, com a cesta de docinhos, grita com voz forte: Docinho, docinho, compra um e leva dois. Continua assim até que todos sejam vendidos, e ela possa voltar com a cesta um pouco mais pesada contendo um pacote de arroz, seis bananas e um litro de óleo. Seu sorriso mostra a felicidade de poder colocar comida na mesa para seus filhos e ainda repor na prateleira os ingredientes para os docinhos da próxima venda.
  Não longe dali outra mulher carregada de cadernos, os quais corrigiu à noite, está correndo para não perder o ônibus que a levará para a sua escola, onde leciona em dois períodos, é a professora do bairro.
 Na esquina, próxima ao ponto de táxi, outra mulher vestida de maneira formal, com duas pastas de documentos, caminha apressada para atravessar a rua, é uma advogada a caminho do fórum para defender seu cliente.
Na roça, com a pesada enxada, a mulher vai capinando o mato, preparando terreno para o plantio do milho, trabalha de sol a sol para ajudar o marido na lavoura. Embaixo de um pé de manga o pequeno rádio ajuda a suavizar o calor que sufoca a alma. A voz da mulher, a radialista comenta os fatos do dia, e assim a enxada avança com mais velocidade.
 No hospital, a mulher enfermeira acalenta os doentes que passam por necessidades físicas e espirituais, com sua dedicação, carinho e habilidade deixam o espaço mais humano, enquanto a mulher secretária auxilia com seus serviços profissionais tanto nas empresas e hospitais, a mulher médica deixa seus filhos, sua família e vai prestar socorro onde é chamada.
Os bichinhos de todas as espécies e gostos fazem a nossa vida bem mais feliz e graças a mulher veterinária eles vivem melhor, com mais qualidade de vida.
A estudante apura o passo para não perder a carona com a amiga que também vai fazer o curso para ser dentista, pois ela sabe o seu valor, no bairro onde mora.
Nas grande e pequenas lojas o número de vendedoras aumenta, pois elas com sua diplomacia vão vencendo no mercado de trabalho.
As mulheres contadoras estão sempre a postos, porque não podem deixar passar um algarismo errado, o que seria um desastre, e com sua competência vão mostrando seu valor junto aos cálculos.
Na construção de mais um edifício, na cidade está à frente de todos uma mulher engenheira, a qual trabalha sem esquecer que é mulher.
No mundo da política ela também está, mesmo que não seja presidente ela é política no lar.
A mulher publicitária está pronta para participar de todas as etapas dos projetos que lhe cabem, pois faz parte de seu escopo analisar, preparar realizar, enfim tornar realidade suas grandes ideias. 
“É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta.”
Há a mulher mecânica, a mulher motorista, a policial, a borracheira, a pintora, a artista plástica, a costureira, a eletricista, a fiel dona de casa, aquela que dizem: não faz nada.
E aquela que gesta, que acolhe que educa, que dá carinho, ensinamentos, direção para a vida, dá-lhe se precisar a sua vida, a única mulher mãe.
E finalmente, sem esquecer alguma mulher de singular importância a Mulher Santíssima Maria, mãe de Jesus e nossa.
“Não se nasce mulher: torna-se.”
E com as palavras de Clarice Lispector, parabenizo a todas as mulheres:
“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado.”

A todas parabéns!

19 de fev de 2018

O Tempo



O ano termina e recomeça, e assim sucessivamente, e o termo que já se tornou um clichê “feliz ano novo” “adeus novo velho”, volta a fazer parte de nosso vocabulário, porém se formos analisar até poderemos pensar que o tempo continua igual, quem sabe uma invenção para nos alegrar, nos dar esperanças de um tempo melhor, passa-nos  a impressão de que ele não é literal, porque parece viver em círculos, vai e volta e assim continuamente. Não vou falar do tempo na concepção de físicos como: Einsten ou Newton, mas de como podemos definir o tempo ou quem sabe senti-lo. O calendário é uma bela criatividade, porque nos dá a impressão de que tudo será novo e que tudo terá um novo começo, ledo engano, pois tudo continua igual, mas com a nossa fantasia de que o tempo mudou, ou que o tempo passou...
Quem na verdade sofre mudanças somos nós, e que às vezes, somos enganados pelo tempo, o qual não é linear, e por isso, não percebemos se ele vai ou volta, sem sair do lugar, nós é que mudamos. Devemos então nos questionar o quanto mudamos, o quanto melhoramos neste tempo que parece que passou muito depressa, ou então naquele que aguardamos chegar com muitas novidades, mas na verdade somos nós que fazemos as mudanças e novidades da vida. Ouvimos muito: ah! quando eu completar tal idade, ah! quando o ano terminar, ou no começo do ano vou casar, e nossa metas são grandiosas, no plano físico, no entanto precisamos nos perguntar quais as metas para o nosso corpo espiritual, a nossa alma. O que fiz de bom neste”pseudo tempo”?
O Calendário é apenas um mero sistema para contagem e agrupamento de dias que visa a atender principalmente às necessidades civis e religiosas de uma cultura.” A palavra deriva do latim calendarium, "livro de registro", que, por sua vez, deriva de calendae, que indicava o primeiro dia de um mês romano.”
O relógio, a ampulheta, o calendário, relógio do Sol, relógio de pêndulo, relógio atômico, relógio digital e tudo que possa nos dar uma noção do tempo facilita a nossa vida para obtermos resultados, quando nos programamos  pensando no tempo, mesmo que ele seja uma mera convenção dos homens, para poder contá-lo ou simplesmente medi-lo.
Albert Einsten afirmou: "Para nós, físicos presunçosos passado, presente e futuro são apenas ilusões".

Mesmo que isso seja verdade, vou fazer uso do velho clichê e desejar a todos um ano repleto de realizações, que seja um tempo bom para todos nós!

7 de fev de 2018

Somos Intolerantes




Ontem em uma roda de conversa boa, o assunto foi sobre sentimentos, alguns ruins, que nos causam mal, e o maior deles, o ódio. E acabamos falando sobre uma palestra, com o tema “Intolerância”, a qual foi proferida por Haroldo Dutra Dias, ele é juiz de direito do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, escritor, tradutor, e conferencista brasileiro.
 Há muita intolerância hodiernamente, tudo se torna intolerante a nós, e
infelizmente, ainda somos estimulados a ter ódio, o assunto da conversa tomou um rumo muito interessante, pois acabamos lembrando de fatos de famílias que foram destruídas devido ao ódio reinante por muitas gerações.
Nelson Mandela já dizia:
Ninguém nasce a odiar outra pessoa devido à cor da sua pele, ao seu passado ou religião. As pessoas aprendem a odiar, e, se o podem fazer, também podem ser ensinadas a amar, porque o amor é mais natural no coração humano do que o seu oposto.
A única voz que o orgulho respeita é a humildade, para a violência, a paz e a brandura.
O ódio nunca ouve o ódio, e para acabar com a intolerância é muito mais fácil  exterminá-la nos outros, pois a nossa própria intolerância nos parece invisível. Atualmente, em qualquer lugar ou em qualquer roda de amigos, se você não tiver ódio de algum político, iniciativa política, ou de alguma pessoa bem sucedida, fica mais difícil de entrar nesta roda. Até parece que é chique ter ódio em algum momento de nossa vida.
Será que o ódio nos dará oportunidade de mudarmos para melhor, fazermos nova política, um novo país? Sentimos ódio por gênero, por pessoas de cor, por falta de conhecimentos, por falta de bens materiais, enfim, execramos o nosso próximo por ele ser apenas diferente de nós.
Precisamos estar vigilantes e mensurar o nosso grau de intolerância. Todos temos escolha, temos que respeitar a maneira de como o outro vive. Amar é respeitar o outro, o nosso próximo. Alguém disse:
-Mas se eu não concordar com o outro?
Basta respeitá-lo, não precisamos concordar com as atitudes dele, pois podemos nos posicionar quanto ao certo ou errado, porém sem ódio, seguindo os ensinamentos de Jesus, que nunca agiu com ódio. Vivemos tempos obscuros, o valor de uma vida é pequeno ou inexiste, a política um caos, a integridade física desmerecida, enquanto que a intolerância e o ódio estão sendo disseminados ao nosso redor.
Falta-nos o ato de nos colocar no lugar do outro, pois rir, aplaudir, acusar é mais fácil que parar para refletir que muitas vezes nos igualamos aos que acusam, ou aos que destilam o ódio através de palavras ou ações. O respeito constrói a paz, constrói o novo.
“Se a sociedade está doente, é porque nós estamos”. Jamais, em todo o mundo, o ódio acabou com o ódio; o que acaba com o ódio é amor.


“Nenhuma qualidade humana é mais intolerável do que a intolerância.”

27 de jan de 2018

Amor e Guerra

As duas garotinhas com passos apressados, seguiam pela estrada barrenta, cada uma com um pequeno embrulho em papel pardo, parecia que protegiam um tesouro, eram muito pequenas para estarem com tão grande responsabilidade, eram irmãs com pouca diferença de idade, 6 e 7 anos.
Vestiam roupas rotas, calçados surrados, meias remendadas e um gorro, o pescoço enrolado em um pedaço de manta surrada, o gelo estalava sob seus pezinhos gelados, a neve cobria seus ombros, e suas roupas pouco ajudavam para proteger do frio, eram tempos difíceis.
O pai foi levado para o campo de batalha, a mãe fazia o possível para manter os filhos fora de perigo, pois tudo era controlado.
O ruído das bombas, mesmo distantes passavam o terror que todos viviam em tempo de guerra. As pequenas, acostumadas a enfrentar o perigo em busca de comida, andavam apressadas, levantavam muito cedo, ainda com a escuridão da noite e saiam como se fossem garimpar tesouros escondidos, e assim que conseguiam algo, elas voltavam esfuziantes, cheias de esperança de mais um dia de vitória. Entraram correndo, a mãe precisou fazê-las  fecharem a boca.
-Mãe, conseguimos comida.
-O que temos hoje, vamos ver?
Ana, a mais nova abriu o seu embrulho e com um largo sorriso, mostrou seu tesouro.
-Veja, mãe, consegui duas batatas e a Marta um bom pedaço de toucinho, teremos uma ótima refeição, não é mamãe?
A mãe esconde as lágrimas, pois há dias tentam sobreviver com o mínimo.
-Como vocês conseguiram tão boa comida, minhas filhas?
-Ah,mãe, o padre estava distribuindo para algumas pessoas e quando nos viu, entregou estes pacotes e nos pediu para guardá-los bem, até que chegássemos em casa, e aqui estamos. A primeira refeição do dia foi excelente, mesmo sendo pouca foi a melhor.
Cada uma tinha suas tarefas e mesmo sem tempo de escola, tinham deveres já estipulados pela mãe.
O bombardeio continuava com seu barulho infernal, a luz era de um toco de vela, a lenha acabara e o fogão estava gelado, assim como toda a humilde casa. Não havia muito o que fazer para se aquecerem.
-Mãe, quando a guerra vai acabar? Não sei, Ana.
-Por que a guerra existe?
A mãe ficou pensativa, pois nem ela sabia o porquê das guerras, sempre soube que existiam, mas não sabia o real motivo de povos fazerem guerra para matar tanta gente, e gente igual a todos, a pequena insistiu na pergunta, e a mãe teve a resposta.
-Filha, a falta de amor, a falta de respeito com o próximo e a falta de igualdade é que levam os povos a fazer a guerra, a matar as pessoas, porém, com certeza, um dia, espero que esteja próximo, todos nós viveremos em paz, o amor reinará em todos os lugares e não haverá lugar para o ódio e nem para a guerra.


Agora vamos dormir, pois não temos como vencer o frio, e amanhã teremos um dia lindo.

Esforço e Competência

Foto da Internet      O final do intervalo das aulas era anunciado pelo sinal, ainda do tempo da sineta, que era grande, pesada e do...