14 de nov de 2017

O valor das pessoas

Nessas andanças pela vida, ouvimos, lemos e falamos sobre muitas coisas... Após o lançamento de um livro, cujo título mexeu  com minha cabeça, fiquei a pensar no que a autora comentou. O livro aborda as condições do preso no sistema carcerário, e vai além do que as lentes nos mostram, nas telinhas ou telonas. E o que mais me chamou a atenção foi a abordagem feita sobre o lado humano, esquecido e trancafiado, daquela criatura.
Indifere aqui, o motivo do encarceramento, mas vamos pensar a respeito de quando ele lá dentro está, na verdade, vamos mais além, nós que gozamos ainda da liberdade, quanto valemos?
Qual o valor que temos em nosso trabalho, qual o valor que temos com nossos amigos ou familiares?
Até quando somos úteis e interessantes ao próximo?
Trabalhamos para auxiliar no crescimento da nossa cidade, do nosso país, e quando nos aposentamos somos esquecidos, e pela visão do Estado, pouco valemos e muito pesamos no orçamento.
Segundo, Albert Einsten:
“A maior missão do Estado é, para mim, a de proteger o indivíduo e lhe oferecer a oportunidade de manifestar a sua personalidade criadora”.
No âmbito pessoal, quando riquezas temos quantos “amigos” nos visitam, procuram-nos e querem estar perto usufruindo do que nosso dinheiro traz, porém quando algo nos acontece e, de repente, perdemos tudo o que tínhamos? Quantos amigos nos restam? Muitas vezes mal dá para encher uma mão.
Quando fraco estamos, e erros cometemos, às vezes erros pequenos, bobagens, por assim dizer, somos açoitados e cada chicotada faz esquecer as coisas boas que fizemos a outrem.
Penso que não apenas o preso sofre o descaso e desdém do sistema, é uma cultura que atinge a todos os cidadãos de bem, e os que deslizes cometeram e estão presos.
Muitas vezes me perguntei quanto valho, até onde posso confiar e acreditar que estou cercada por pessoas que me querem bem? Não tenho grandes posses materiais, mas nos dias atuais, infelizmente, o pouco que temos já é invejado e desejado por pessoas de má fé.
A questão toda é pensar: para quem realmente somos valiosos, e nós sabemos a resposta, em nosso íntimo todos sabemos, mas muitas vezes nos deixamos iludir e acreditamos que todos os cinco mil amigos do facebook nos amam de verdade. Acredito que devemos procurar saber o nosso valor perante Deus e a sociedade, pois ainda estamos em processo de transformação, de evolução. Exemplo a ser citado, a imagem em bronze, de uma escultura da norte - americana Bobbie Carlyl, a qual nos mostra um homem esculpindo-se, uma metáfora que revela que não estamos totalmente prontos, apenas parcialmente, e neste processo de melhorarmos como pessoas, podemos avaliar o nosso valor a cada dia para a família, para a sociedade, para os nossos amigos e para o Estado.
A indagação, talvez mais importante :


-Eu ainda valho algo para mim?

29 de out de 2017

Lembranças...

Dias atrás, uma velha amiga me convidou para ajudá-la a comprar sapatos, adoro isso, ficamos por longo tempo discutindo sobre modelos, preços e onde iríamos comprar. A lista de lojas que vendem calçados é longa, pois juntamos as lojas das duas cidades, o que para nós não altera em nada, pois elas são cidades irmãs.
Percebi, que minha mente estava sendo invadida por lembranças, memórias de minha infância, quando eu ia com minha mãe fazer compras.
Tenho saudades de tantas coisas, saudade do que ficou de bom em minha memória. Será que faz bem sentir saudades? Penso que sim, pois nos leva a lembranças e momentos que foram bons.
Alguém já dizia, “Mesmo que as pessoas mudem e suas vidas se reorganizem, os amigos devem ser amigos para sempre, mesmo que não tenham nada em comum, somente compartilhar as mesmas recordações.”
 E aí, perguntei para a minha amiga:
-Lembra da Casa Damasco?
Ela ficou um tempo pensando e me respondeu:
-Não lembro, pode me contar?
E minha mente voou e foi buscar belas lembranças. Em Porto União, ao lado de onde era o Hospital Nazaré Farah, hoje há um estacionamento, ficava a famosa Casa Damasco, lembro de ir com minha mãe, comprar sapatos, naquela época, só ganhávamos calçados novos no Natal. Minha memória olfativa entrou em cena, e minhas recordações da infância me fizeram retornar ao local da loja de sapatos, ao lado de minha mãe, o cheiro do couro, está vivo em mim, e é bom, pois a emanação da fragrância do couro, trouxe as reminiscências do tempo em que tudo era bom, o chão era de madeira, e na porta um grande degrau de madeira também. Era bom olhar as caixas nas quais vinham os sapatos, uma marca que consigo lembrar com nitidez, porque minha mãe a tudo respondia, talvez pela associação que ela fazia, a marca era Navio, na frente da loja havia uma vitrine pequena, e para protegê-la uma grade de ferro, mas na minha lembrança ainda é como uma cerquinha, muito linda. Ah, e naquela época, já existia o famoso caderninho para marcar e pagar depois, mas esse era um caderno grande, comprido, anotava todas as compras do freguês, penso que havia muita confiança para vender fiado, porque atualmente com tantos cuidados e facilidades não se consegue cobrar de todos.
Também havia outra loja, se minha memória não me engana, poderia afirmar que havia passagem de uma para a outra loja, ela ficava onde hoje é o Lord Cabeleireiro, se fosse hoje, seria chamada de Loja de Departamento, que  é um tipo de comércio que apresenta nos seus locais de venda uma larga variedade de produtos eletrônicos de grande consumo, tais como vestuário, mobiliário, decoração, produtos cosméticos, brinquedos, tecidos, linhas, agulhas, fios, roupas, que fazia parte da mesma loja, mas com sua diversidade de produtos.
A dona Nazaré, carinhosamente, chamada de dona Naza, estava sempre a postos, de avental, quem não lembra dela? Vinha sorridente atender, e ninguém saia sem levar alguma coisa, e não havia como sair sem nada, sendo tão bem recebido com um sorriso e acolhimento gostoso. Seu Miguel Farah é claro, sempre junto.
Falando em seu Miguel, ele começou consertando sapatos, época em que a maioria das pessoas consertava tudo, porque hoje até os calçados são descartáveis. Como era um homem vanguardista tinha suas habilidades, e então começou a confeccionar os calçados, ele cortava usando o molde e dona Naza os costurava, trabalho artesanal, porém árduo, mas feito com muito amor.
Então de consertos de sapato passou a confecção. Houve uma grande feira de calçados, em 1928,”Exposição Agroindustrial”, na qual seu Miguel participou com sua coleção, e o resultado foi vitória para a sua produção seguida de reconhecimento com um diploma de loja industrial. Quem ouviu o ditado popular: “Deus ajuda quem cedo madruga?”
Com certeza, porque madrugando há mais tempo para se organizar no trabalho, para aumentar sua produtividade, e assim era com seu Miguel e dona Nazaré, cedinho já estavam no batente.
Roberto Fraga dizia que:
“Viajar no tempo é reviver reminiscências que ficaram no pensamento. Um momento único em que damos asas a imaginação ao percorremos um distante evento no exato momento de sua criação. O prazer inolvidável que nos acompanhará pela vida afora e proporcionará o prazer de um instante de felicidade que permanecerá pela eternidade.”
Ah! Quanta saudade, e ela é isto mesmo, lembrar e relembrar dos bons tempos por nós vividos, vale a pena ter as nossas memórias rebuscadas, às vezes, pois nos levam a sentir o imenso prazer novamente.

Voltei ao presente e fomos comprar um sapato.
Foto: Google

10 de out de 2017

Criticar ou não criticar?

Às vezes o que precisamos é apenas um filme que nos traga algo de bom. E esses dias eu estava a procura de algo bom, delicado e encontrei Florence, quem é essa mulher? A película, dirigida por Stephen Frears, traz Meryl Streep no papel de uma socialite nova-iorquina, Florence Foster Jenkins. Seu sonho é ser cantora, a questão é que ela não tem dom para a música, e suas desafinações são constantes. Mas ela não se deixa abalar, mesmo porque seu devotado marido, St. Clair Bayfield, vivido pelo ator Hugh Grant, passa a maior parte do tempo “convencendo” a imprensa de que sua esposa é talentosa, e seu convencimento monetário traz sempre boas críticas nas linhas dos principais jornais, exceto um. E é justo este que duramente penaliza Florence, com palavras duras e negativas, e a aspirante à cantora, cuja saúde já se encontra debilitada, não resiste. O filme é delicado, e é baseado na vida real de Florence Foster. Nele, Meryl Streep teve que desaprender a cantar e deu vida a uma simpática e dedicada mulher a qual pensa que é uma cantora de Ópera. Após o término do filme parei para refletir: será que temos direito à crítica? Quanto podemos ser ácidos com nossas canetas e teclados e destruir os sonhos de outra pessoa? Quantas e quantas histórias foram minadas devido a críticas duras? Quantas e quantas pessoas deixaram de lado seus objetivos, e hoje, levam uma vida medíocre pelo simples fato de que no momento a crítica feita foi severa demais? Fica claro que o que mantém Florence viva é a paixão pela música e, quantas paixões você deixou de lado por medo? Ou por apontamentos de dedos? Quanto de você já morreu por não poder ser você mesmo? Por acreditar que você não era bom o suficiente porque outra pessoa falou? Florence lotou um dos mais cobiçados espaços de Nova Iorque, o Carnegie Hall. Em um concerto, no qual parte da plateia a aplaudiu porque ela a fez gargalhar, e outra parte a ovacionou por pura empatia. E essa era Florence: uma pessoa que transbordava carisma e alegria, que renascia a cada vez que pisava em um palco. Ao término do show, as luzes se apagavam, as pessoas iam para suas casas, a cortina se fechava e a vida continuava, assim que deveria ser sempre. Cada um vivendo seu sonho, cada um vivendo sua vida. Acredito que determinadas críticas auxiliem para as melhorias de obras musicais, peças teatrais ou pinturas. Mas, será que elas são sempre necessárias da forma ácida como alguns as escrevem? Florence viveu intensamente seu sonho, que foi interrompido por letras afiadas em um jornal impresso. No fundo, ela só queria cantar. Há quem ache lindo, um quadrado em uma tela branca, outros percebam apenas um quadrado em uma tela branca. Quem está certo?
“As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas.” (Rainer Maria Rilke)
Imagens: Google



29 de set de 2017

Ser cidadão e ter cidadania

Estávamos caminhando pelo parque da cidade, em companhia de duas pessoas, uma amiga de longa data e outra, que era amiga da amiga. Fomos conhecer o lugar, pois havíamos feito uma pequena viagem com esta intenção. Ao passar por uma árvore, percebi muitas latinhas e copos descartáveis jogados sob a belíssima árvore, e nada daquele lixo combinava com a paisagem, peguei uma sacolinha que estava no chão e coloquei o lixo dentro, e comecei a olhar em volta para ver onde estava o balde ou cesto para depositar o que eu estava segurando, e não longe dali eu o avistei, depositei  a sacola cheia e voltei. Quando me aproximei das duas, a amiga da minha amiga estava de olhos espantados comigo, e disse:
-Você é ativista?
Fiquei observando-a e respondi:
-Não, sou cidadã.
E ela continuou:
-Mas você nem mora aqui, para que se preocupar com a limpeza de outra cidade?
Eu estava pronta para ser um pouco grosseira, mas pensei melhor e respondi:
-Temos que cuidar de tudo e de todos, pois o que afeta uma pessoa afeta a todos nós, mesmo que indiretamente, e se temos caráter, somos inteligentes, é porque fomos educados, e a Educação faz parte de tudo isto.
-Mesmo não morando aqui, lembro que Sócrates já dizia, que não era ateniense nem grego, mas um cidadão do mundo. Eu me sinto um pouco assim, por isso, penso que tenho que cuidar dos lugares por onde passo. Senti-me na obrigação de continuar a minha explicação. Entendo que ser cidadão é ser gente, é respeitar o próximo como a si mesmo.
Ser cidadão não é apenas ter direitos, pois sabemos que o cidadão tem direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante à lei: ter direitos civis, também participar dos destinos da sociedade, possuir direitos políticos.
Ser cidadão é participar como agente atuante da sociedade, e não se limita em apenas cobrar pelo retorno dos altos impostos cobrados, mas com certeza, é respeitar ao próximo independente de sua cor, religião, sexo, pois ele é seu próximo e tem os mesmos direitos e deveres que você. O respeito vem de situações muito simples, como: respeitar as filas, e como o que aconteceu há pouco,não jogar lixo na rua, nas calçadas, nos parques.
Precisamos fazer sempre o melhor que existe em nós, lembrei de Martin Luther King quando falou:”Talvez não tenhamos conseguido fazer o melhor, mas lutamos para que o melhor fosse feito.”E, se isto acontecer já podemos nos sentir como bons cidadãos.
Ser cidadão é ser o criador de seu próprio mundo, seu ser, sua identidade, é ser agente do processo histórico  Ter cidadania é ter consciência crítica, é saber refletir sobre tudo.


“É o homem constituir-se como homem entre outros homens.”

18 de set de 2017

O outro lado da cegueira

Um dos trechos mais comentados e que mais aprofundam o leitor dos personagens é quando Saramago escreve:  “O medo cega (…) são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos”(…) “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
Penso comigo quantos, desprovidos da visão física, reparam no próximo muito mais, que nós, que temos a visão perfeita, fisicamente falando, e a história nos leva ao submundo do ser humano, uma pitada de algo animalesco, em que nos despimos de toda moral e bom costume, e mostramos que nem sempre somos fortes a certas situações como queremos mostrar à sociedade.
É bíblico falarmos “ajuda ao teu próximo”, mas quantos o fazem? Quantas pessoas vem e reparam no próximo? Diante de inúmeras diversidades, quantas fazem algo? Quantas saem do comodismo e realmente fazem algo?
Não sei se somos cegos propositadamente ou porque fomos acostumados a sê-lo, há sempre um pouco de comodismo em cada um de nós, que grita mais alto quando se trata de arrancar as vendas dos olhos e ser empático. 
Na história, que retrata a todos nós, aos poucos a natureza humana vai ficando de lado, e o animal surge, pela simples e pura luta por sobrevivência, por um pouco de comida e água.
Analisando a obra acredito que pouco mudou de 1995 para cá. Aceitamos muitas coisas passivamente, fingimos não reparar em outras.
“Se não formos capazes de viver como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais.”

E como dizia José Saramago: Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.

8 de set de 2017

Devolvam o papel do homem ao homem



Não conhecia a literatura de Martha Medeiros.  Havia assistido ao filme Divã, ótimo roteiro, ótima interpretação de Lilian Cabral, mas não sabia que era uma adaptação da obra literária dessa cronista brasileira, por ignorância, preguiça momentânea ou simples falta de curiosidade, apenas assisti ao filme, sem interesse nos créditos, fato que não é comum, pois  vejo o roteiro e, se é adaptação, procuro saber sobre o autor e obra.
Estava eu na fila do mercado, algo que adoro, por sinal, e deparei-me com o livro “Feliz por nada”, perguntei-me: e por que não? Comprei.
Fazia alguns meses que não abria um livro novo, e estava sentindo falta das folhas entre meus dedos. A leitura digital tem suas vantagens para quem não tem tempo, mas jamais substituirá o prazer de um bom e tradicional livro físico. Trata-se de um livro com várias crônicas, escrita por Martha, em vários momentos de sua vida, todas com o teor do tema: é preciso muito pouco para ser feliz. Entre os textos lidos, o que mais me chamou a atenção foi “Mulheres na Pressão”, as mulheres de hoje não se comparam em nada às mulheres do tempo da minha avó, por exemplo , ou melhor, o único elo comum que ambas têm é que são mulheres. No fundo, apenas mulheres, mas não estou aqui para discorrer sobre nós, mulheres, mas sobre algo que, em uma frase, uma pequena frase, já no final do texto, Martha me fez parar por um momento, fechar o livro, dar um sorriso e exclamar: é isso aí ! “Estou com saudades de ler e ouvir sobre as adoráveis qualidades dos homens. Eles merecem voltar a ser valorizados em seus atributos.”
Pensei na hora: essa gaúcha entende da coisa! Resumiu o que há tempo não se consegue explicar: por que os relacionamentos homem x mulher duram pouco? Por que os homens andam apagados? Por que os homens se sentem tão ameaçados pelas mulheres? Por que os homens não tomam mais iniciativas? Por que há tantas mulheres tomando conta da casa, emprego, filhos, família? Cadê os nossos homens? Refiro-me a todos : namorados, maridos, amigos, irmãos, avôs, tios, primos, pais...Não se vê mais tal espécime na mídia (escrita ou falada).
Antes eu abria uma revista e via uma página inteira referindo- se a eles. Hoje, no máximo, um anúncio de duas frases. Antigamente, o homem fazia seu papel, e muito bem feito, diga-se de passagem.
Hoje, o homem está esquecido, o homem está jogado de lado, está em um canto da sala e fala  quando é convidado pela anfitriã. As mulheres tomaram frente de tudo, inclusive quando ele deve se aproximar e se afastar. Quebrou-se o encanto, esqueceu-se a magia, e o homem encontra-se perdido num mundo moderno, num mundo em que temos mulheres fazendo papel de pai e mãe.
Os mais afoitos e feministas, respirem, contem até três. Não estou  difamando, nós, mulheres. Não estou descartando nosso papel na sociedade, na evolução, nem mesmo esquecendo as coisas boas que trazemos todos os dias, para o mundo, mas creio que devemos deixar o homem voltar ao seu papel: ser homem, ser pai, ser amigo, ser irmão, ser avô, ser tio, ser namorado, ser empregado, ser patrão, ser companheiro. Não há substituto  para o homem, assim como não há para a mulher.
Ficamos tantos anos sendo descartadas, que, quando abriram a porta, avançamos com tanta sede ao pote, e não paramos mais, nem mesmo para tomarmos fôlego, e o pobre homem, acuado, estagnou-se.
Não sei se ainda há tempo para que eles  reencontrem seus papéis na sociedade moderna, mesmo sendo polêmica a frase: vale a pena deixarmos tentarem.

16 de ago de 2017

O Voar do Tempo


Bola de gude, amarelinha, bets, pega-pega, brincadeiras que fizeram parte da infância de inúmeras gerações e, hoje soam como lendas para muitas crianças.
Fico a pensar, enquanto olho à minha volta, até que ponto tanta tecnologia faz bem às nossas crianças nos dias de hoje? Que adultos serão? Quão distantes serão de seus pais ou filhos?
Tudo em demasia faz mal, a tecnologia talvez seja o mal necessário no mundo capitalista, unindo pessoas de vários pontos do planeta.
Esses dias, conversando com alguns amigos, discutíamos justamente isso: saudosismo. Saudades daquele tempo em que o tempo passava mais devagar, quando aproveitávamos mais as conversas durante os almoços de domingo, aproveitávamos mais a companhia da nossa família, quando nos reuníamos nos finais de semana para assistirmos a filmes com pipoca feita na panela. 

Quando lemos histórias de décadas passadas e percebemos que tudo acontecia morosamente, alguns namoros eram por carta, amigos se correspondiam por cartões postais e muitas confidências eram escritas em agendas com direito a cadeados e chaves.
Hoje, o Facebook tornou-se esse diário, cartas e cartões postais ficaram para trás e, em seu lugar entrou o WhatsInstagram e outros veículos mais rápidos.
Não temos mais tempo de esperar a pipoca ficar pronta na panela, colocamos o pacote no microondas e enquanto esperamos os três minutos, lavamos a louça, tomamos banho, mandamos e-mail, respondemos Whats, atualizamos fotos e, quando percebemos, o microondas já está há dez minutos apitando para avisar que a pipoca está pronta.
Às vezes, sinto vontade de ir para um lugar como aquele que nos é mostrado em músicas, descritos em livros ou em algumas telenovelas... a natureza, uma pequena casa e nada mais, sem sinal de telefone, sem televisão, sem conexão com nenhum outro mundo que não seja o meu.
Acredito que é importante fazermos isso para nós mesmos, nos reencontrarmos, nos desconectarmos do mundo externo e reconectarmos nossa alma aos nossos pensamentos.
Não correr atrás de informações, ou tentar abraçarmos o mundo como se tivéssemos capacidade para tanto.
Inúmeras vezes já me deparei com tanto equipamento eletrônico, que eu não sabia qual era qual: TabletNotebookNetbook, computador de mesa, celular, Koobo, sentia-me perdida em meio a tantos caminhos que me levavam para onde eu quisesse, mesmo para dentro de mim mesma.
Hoje, o tempo voa, a vida passa num piscar de olhos, pelo simples fato de não aproveitarmos o que estamos fazendo no momento em que estamos fazendo.
As crianças de hoje conectam-se a jogos, conversas digitais, mas não aos seus pais.
Esses dias uma criança sendo entrevistada respondeu que tinha cerca de dois mil amigos, o que deixou o apresentador boquiaberto, é claro, que o apresentador entendeu do que se tratava, e que ela não tinha dois mil amigos, ela se referia ao Facebook, e ela tinha, sim, dois mil seguidores. Amigos? Pela idade dela, talvez, no máximos seis: seus pais e seus avós.
Esta distorção de amizade acontece há muito tempo, porém muito mais agora, com o Facebook. Quando você atinge um número “x” de “amigos”, não pode mais adicionar ninguém, ou você exclui ou você cria outra página, entretanto, na vida real, tudo é mais complicado, tudo é mais distante, tudo passa longe desse mundo azul ou amarelo.
Essa criança, ainda ingênua, pensa ter dois mil amigos, mas quando o apresentador perguntou se ele poderia ser amigo dela, rapidamente, ela disse:- sim! E deu um longo e demorado abraço nele, é possível perceber ali uma certa carência, e penso ter razão quando disse que, pela idade, talvez ela tivesse, no máximo, seis amigos.
Eu tive uma infância boa, não posso reclamar, conheci muitas brincadeiras feitas em casa mesmo, com o que tínhamos e a diversão era garantida no final do dia, com meus primos e irmãos.
Não sentia falta de um vídeo game, ou um celular de última geração. O nosso telefone era discado e fazia exatamente o mesmo serviço que um IPhone faz: comunicação.
As vizinhas iam às janelas perguntar como estávamos, ou sentávamos nas calçadas para tomar chimarrão. Hoje mandamos emotions.
As crianças saem menos, brincam menos nas ruas e os pais até preferem. Seja pela violência atual ou pelo simples fato deles serem ocupados demais para estarem com seus filhos.  
E a tendência é que o tempo continue a voar, a passar num piscar de olhos.
As tecnologias avançam, descartando cada vez mais brincadeiras caseiras.
A evolução é necessária, principalmente no mundo em que vivemos, mas até onde ela nos torna sadios? Até onde ela não causa danos à nossa saúde física e mental?
Até onde os pais estão preparados para enfrentá-la e saber como agir quando seu filho estiver envolvido em uma teia como o jogo da Baleia Azul, por exemplo?
Vejo discos de vinil e fitas cassetes voltando às prateleiras, penso comigo que não sou apenas eu que sinto saudades dos tempos antigos, que eram bons tempos...
             
Fotos: Google

12 de ago de 2017

Pelo Dia dos Pais

O Naco de Prosa deseja a todos 
         um lindo e feliz
                Dia dos Pais! 

Foto: Google

2 de ago de 2017

Naquele Verão

Lembro-me daquele fim de tarde
O sol se punha devagar, dourando as ondas do mar que salgavam a nossa pele.
Deitados sobre a areia, nada, naquele momento, importava, os batuques feitos nos braços dos violões acompanhavam o vai e vem das ondas que se quebravam sob nossos corpos, o céu estava limpo, a lua enorme e brilhante. Tudo parecia tão perfeito, com um gosto de que nunca iria acabar.
Famílias, amigos, colegas, namorados, jovens apaixonados, todos reunidos, todos felizes. 

Foi apenas um disparo, e tudo se quebrou dentro de nós,
como se fôssemos feitos de cristal, o cristal mais delicado e raro que há, aquele cristal que não há como colar, como consertar, como refazer. 
Acidental ou não, ele era apenas um garoto, jovem, cheio de planos, cheio de sonhos e fantasias,
lembro dele correndo ao nosso encontro quando chegamos. Pulava em nossos braços, entrelaçando suas pernas em nossas cinturas, era tão típico dele aquele gesto, mas nunca nos cansávamos.
Moleque de riso fácil, de dentes espaçados e olhos grandes, dois grandes círculos escuros que brilhavam ao lerem histórias de Robin Hood, o herói que ele iria ser um dia, como ele tanto falava ao fechar o livro em um estalo e pular de um sofá para outro, deixando sua avó em polvorosa.
Apenas um disparo, e mais nada.
O coração já não batucava em seu peito, seus olhos, tão lindos, vidrados em um lugar longe dali,
já não estava mais conosco, na verdade, há tempos ele andava distante.
Tudo foi perdido junto com aquele disparo.
Uma vez assisti a um filme, em um dos trechos, a personagem dizia que quando uma mãe perde um filho, todas as mães do mundo, perdem um pouco também.
E acredito ser verdade.
Ver aquela mãe debruçada sobre aquele menino, salgando seu pequeno corpo com suas lágrimas,
levou um pequeno pedaço de cada um de nós.
Não era para ser assim, era para ser diferente
Tão jovem, tão inteligente, tão bonito, tão esforçado.
Seria talvez um advogado? Um médico? Um professor? Um cientista ou arquiteto?
Ou viveria em seu mundo dos sonhos até despertar para a vida real?
Nada é mais ensurdecedor do que as lágrimas de uma mãe que perde seu filho, as ondas continuavam  indo e vindo, assim como nossos pensamentos.
Às vezes, eles quebram antes de chegar a um destino final, às vezes, quebram sob nossos pés, às vezes, tentamos pegá-los, mas eles fogem de nós... Assim como fugiu do mundo, aquele doce menino.
Fotos: Google



26 de jul de 2017

Sobre os dons das pessoas

Há pessoas que nasceram com dons, outras, acredito eu, que desenvolveram através de técnicas e aulas.
Conheço pessoas que resolvem contas matemáticas quilométricas em algumas horas, contas essas que eu nem imagino por onde começaria.
Outras, quando abrem a boca, parece que há anjos em suas cordas vocais que nos levam para um lindo passeio por entre nuvens e pensamentos saudosistas...
Outras, que afiam seus lápis e canetas, e nos levam a outros mundos, a novas descobertas.
Costumo dizer que não há outra atriz para interpretar Cleópatra que não seja Elizabeth Taylor. Assim como não há outra atriz para Tieta além de Betty Faria. Aqui abro um parênteses, a novela atualmente é reprisada no canal Viva em três horários distintos, incluindo os domingos, e, mais uma vez, alcança um público que supera de longe todas as novelas atuais da rede Globo, e uma das causas principais é justamente Betty Faria interpretando Tieta.
Mas, voltemos aos dons natos. Betty Faria, Elizabeth Taylor, Elvis Presley, Frank Sinatra, Meryl Streep, Albert Eistein, Stephen Hawking, Osvaldo Cruz, Jorge Amado, Clarice Lispector… têm algo em comum: dom. Dom que nos faz suspirar, sorrir, chorar, indagar, viajar, seja nas telonas, telinhas, livros ou CDs.
E, sim, acredito que essa seja a missão deles: nos encantarem com seus dons geniais. Com suas escritas, voz ou atuações.
Hoje, fala-se mundo das crianças índigos, dizem os estudiosos que elas nascem com uma aura azul-indigo e que vieram para trazer a mudança que o mundo precisa, principalmente em relação a reaprender a amar.
Esse é o dom dessas crianças, ensinar ao outro a amar. Todos temos algo intrínseco em nós, seja pequeno ou grande, a mudança sempre aparece em um determinado momento de nossas vidas para mudarmos as nossas vidas e a de outros.
Erroneamente ouço pessoas dizendo “eu não sei fazer nada” ou “eu não nasci com talento para nada”. A questão é: será que essas pessoas estão olhando para o lado certo ou simplesmente desperdiçam seus tempos no mundo esperando o dia de suas mortes, fazendo apenas o básico? 

Sim, porque você ter dom é uma coisa, agora lutar para mostrar ele ao mundo, é muito diferente.
Quantas horas você acha que um ator se prepara para uma simples cena? Quantas palavras negativas e desnecessárias cantores ouviram até chegarem no seu momento atual? Quantos comentários maldosos Clarice Lispector leu a respeito de suas obras?
O preço para demonstrar seu dom nem sempre é baixo, acredito que seja um dos mais altos, pois todo começo exige mais do que podemos imaginar. Há uma cobrança externa e interna. Há dúvidas, medos, anseios, perspectivas até chegar onde se deseja. Até poder demonstrar ao mundo o porquê de você estar aqui.
Essas crianças índigo são exemplos disso: elas falam em amor, em não matar animais, em um mundo capitalista, egoísta e que não se importa com o próximo. Elas são tachadas, discriminadas e incompreendidas. Mas estão ali, aqui, lá, mostrando ao mundo seu dom maior.
Quantas pessoas foram discriminadas em seus inícios? Quantas foram desacreditas? Um deles é Albert Einstein, que foi desmotivado por um dos seus professores a não persistir, a não investir nele mesmo, foi tachado de “burro”, “lento demais”, “sonhador”. Todos temos nossos dons e o momento certo deles aflorarem. Temos que estar preparados o bastante para “aguentar o tranco” que virá junto a esse desabrochar.  Se temos um dom, é porque o mundo o espera. Não teria porque dele existir se não fosse para se mostrar, para arrombar portas e invadir mentes, corações e almas.
Há pessoas que fazem muita diferença em nossas vidas, mesmo sem se darem conta disso, utilizam para isso seus dons. 
Mas, há um dom em especial, que todos têm dentro de si, colocado diretamente pelas Mãos de Deus, e hoje perde espaço para muitas outras coisas materiais: trata-se do amor.
O amor que não mede caminhos ou esforços, o amor que estende a mão, que abraça, que afaga, que sorri e faz sorrir, o amor que preenche, que aquece, que permite. Exatamente o que Deus colocou dentro de nós, mas que muitos já não o percebem mais, e o trancaram em uma caixa e não sabem onde está a chave.
Esse dom maior, que ouso dizer, move todos os outros. E que quando é perdido, a vida se torna fria, as pessoas se distanciam e tudo se torna opaco.
A centelha da vida está em cada um de nós, assim como o amor. Um veio junto com o outro, mas o outro, muitos deixaram de lado.
Os dons movem o mundo, as pessoas, mas o maior de todos precisa ser resgato com urgência. Para que todos os outros não padeçam.
Imagens: Google



O valor das pessoas

Nessas andanças pela vida, ouvimos, lemos e falamos sobre muitas coisas... Após o lançamento de um livro, cujo título mexeu  com minha ca...