30 de jun de 2015

Em tempo de São João

Cresci vendo a fogueira ser montada, ser acesa e queimada, espetáculo que se repete todos os anos com a festa do Padroeiro do bairro São Pedro. Neste ano, será a 80ª. fogueira a ser acesa. Aproximadamente na década de 60, meu pai tinha um caminhão Chevrolet e o Sílvio Melo, filho do seu Romualdo, possuía outro.Os dois dirigiam até o Trabuco, onde meus avós tinham um sítio, havia uma equipe de voluntários que ia junto, para lá cortarem a lenha para a fogueira, eles saiam de casa bem cedinho, levavam comida e passavam o dia no mato trabalhando, tudo acontecia nos finais de semana. Meu avô, Estácio,  fez  a doação de lenha por muitos anos. No domingo, as crianças podiam assistir de longe o trabalho, que era extremamente árduo, porém, recompensador. Meu pai tinha um armazém e ainda trabalhava como marceneiro, sua profissão, entalhava móveis com muita perfeição o que o fez, por vinte e três anos. Na época da fogueira, ele às vezes, não podia estar  junto com a equipe, pois precisava ajudar a minha mãe, no armazém, então ele mandava a comida para todos que estavam trabalhando para erguer a fogueira. As varas de eucaliptos eram compradas, mas não eram varas eram troncos enormes, como deviam ser para sustentar tão grande " Colosso". Em certa ocasião, um senhor doou as varas, eram muitas e grossas também, como o tempo estava muito chuvoso as varas ficaram por alguns dias à beira da estrada , no meio do barro. Em um sábado de muito frio e com geada, conseguiram emprestar o trator do Seu Madureira ( gerente do banco INCO), foi colocado um reboque engatado no trator, as varas( muito grossas) estavam cobertas de gelo, o trabalho durou muitas horas e quando tudo estava pronto, o dono do trator chegou e recolheu-o, porque  ele só admitia que o seu motorista usasse a máquina. É claro que tudo foi desfeito, e meu tio ( Ihor Andrukiu) me contou que a fome era desesperadora, tiveram que arrumar um caminhão e carregar tudo de novo. Já era noite, pois no inverno, o sol vai dormir mais cedo, e todos da equipe sabiam que ainda tinham que descarregar no pátio da igreja, dizem que São Pedro é muito bom, pois quando chegaram, o motorista fez uma manobra rápida,mas no lugar certo, sem ninguém mais sobre o caminhão, aí, arrebentaram-se sozinhas todas as cordas e, num segundo todas as varas estavam no chão.Contaram que todos aplaudiram agradecendo a São Pedro.
A equipe era composta por seu Osni Meyer, Seu Friedrich, Sílvio Melo,Ihor-Ivo Andrukiu, Seu Valdemar( conhecido como Piratuba), Levanir Fagundes, Pedro Celestino,Adelmo Menegasso , Carlos Drosdoski, Seu Ângelo Shwab, e meu querido pai. Tentei não esquecer nomes.
foto da fogueira do bairro São Pedro.
A fogueira começava a ser erguida e quando já estava em uma altura que não dava para alcançar, era passado uma roldana e assim puxada a madeira para cima, ela era toda reforçada com muitos arames, hoje são cabos de aço.O guindaste do batalhão sempre dava uma ajuda, certa vez foi colocado no guindaste uma vara enorme, foi fechado o gancho e começou a subir, a vara era tão alta que se tombasse pegaria muitas casas. De repente, todos perceberam que o gancho abriu, a vara ficou suspensa, o soldado que manobrava não mexeu em nada,ficou paralisado e todos pediram a São Pedro aos brados para que os ajudassem, e quando a vara começou a balançar o gancho se fechou sozinho, agradeceram de joelhos, eu acredito em milagres, mas este eu não presenciei, porém houve muitas testemunhas, até o soldado que manobrava o guindaste ficou sem fala.
Nesta época, a fogueira ganhava altura e chegou a 60 metros, dizem que passou um pouco, foi notícia no Jornal Nacional e no Fantástico.
Ah! Agora vem a peça chave, como acender a fogueira tão alta, o seu Schwab ( meu pai sempre dizia que ele sabia fazer de tudo), hoje seria o Magayver, ele criou uma peça com dois fios elétricos que ia até o topo da fogueira colocava uma resistência rodeada de místico ( não é pólvora, seria como o pó do palito de fósforo) e estopa embebida em gasolina, embaixo uma mesa com um interruptor, que era acionado pelo convidado a acender a fogueira, assim ela era acesa.
As lembranças trazem saudades, hoje por medida de segurança ela fica entre 38 e 40 metros.
Era uma grande equipe e fazia sucesso, como nos dizia Murillo Cintra de Oliveira :-" O segredo de um grande sucesso está no trabalho de uma grande equipe".
A foto tirada à noite, no exato momento em que foi acesa.


21 de jun de 2015

O mal necessário

Ontem constatei o que muitos já me falaram , filmes bons passam na madrugada, e foi o que aconteceu na madrugada de ontem. 
Assisti a um filme que nos mostra como seriam as pessoas e suas rotinas caso a mentira não existisse. Todas as personagens falam apenas a verdade, e muitas vezes, são sinceras até demais. Observando diálogos e atitudes, fiquei pensando até onde a verdade, a sinceridade faz bem às pessoas. Percebi o que a verdade causava às pessoas, digo que ela não faz tão bem assim... já me perguntei sobre a sinceridade, muitas vezes ela chega a magoar a pessoa a quem é dirigida. No filme, isso ficou explícito, quando um dos personagens, não aguentando mais as verdades ditas sobre a sua vida frustrada, comunica a um vizinho que tentará se matar até o fim do dia. É perceptível que, num primeiro momento, o vizinho cheio de problemas, não se importou muito com o que acabara de ouvir, mas por um momento, num click de consciência, ele mentiu. Disse àquele estranho que ele era muito importante sim. E o futuro daquele rapaz sem esperança foi reescrito. Quando a mentira vem para ajudar, vem para fazer o bem, vem para evitar um ato desesperado, ela vale a pena, e no filme foi feita a dosagem correta. A mentira, no filme não veio para denegrir, humilhar ou prejudicar alguém. Ela foi usada no momento certo, nem sempre a pessoa precisa ouvir a verdade, há situações que a omissão dessa verdade fará bem a ela. É preciso saber a dose, é preciso saber quando usar. Há pessoas que simplesmente não estão prontas para ouvir, ou não querem ouvir. Na maioria das vezes, sabemos qual a real situação em que nos encontramos e perguntamos algo justamente para ouvir o contrário, algo que maquie um pouco, para que nos sintamos melhores, menos desconfortáveis, para que, de uma forma estranha, a coragem apareça para enfrentarmos a vida. 
Sim, às vezes, mentir faz bem!

Segue um trecho do filme ( O primeiro mentiroso ): 


O outro lado da cegueira

Um dos trechos mais comentados e que mais aprofundam o leitor dos personagens é quando Saramago escreve:  “O medo cega (…) são palavras c...